sexta-feira, 23 de outubro de 2015

despontuando

não há o que escrever
nenhum verso apenas
nenhuma palavra amena

não há o que viver
nenhum ser depena
nenhuma vivência serena

não há o que dizer
nenhum sussurro envenena
nenhum rugido condena

não há o que ver
nenhuma luz se crê ver
nenhum espelho me vi ver

não há mais nada
só tudo entre ter
e o resto que é sobre-viver

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Num fechar de olhos

Não sou muito acostumado a pesadelos. Sonhos, sim. Sejam sonhos "bons" ou "ruins".
Hoje a noite sonhei com coisas que me perturbam atualmente. Já tive muitos pesadelos, é claro. Mas, esse, em especial, "bateu". Por quê? Porque nele eu nem morri, nem ninguém que eu amo; nem cai do espaço, nem da cama; nem mergulhei, nem "enguiei".

Foi um sonho-pesadelo-sonho tão racional e real que nem lembro mais.

São assim os sonhos: te arrebata e pouco te lembram depois, mas te permanecem.

Esse é o meu bom dia.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A /quão-dura/ da escritura

Uma vontade grande de escrever. Não sobre uma coisa, mas sobre qualquer coisa. Escrever, escrever e escrever. Se não fosse o que mais tenho tentado fazer, seria mais simples do que dizer: es-cre-ver.

Os ânimos da escrita ficaram pelo caminho. O desanimo pesado fez esse mesmo caminho parecer e se tornar longo. Assim, os passos se acumularam e já não tão fáceis de serem dados. O que antes parecia fluído e possibilitava admirar o percurso, parar, olhar para os lados, para cima e, também, para baixo. Em que o cansaço era seguido de alívio e da retomada das pegadas deixadas para trás. Agora parece uma atividade mecânica, apenas um passo seguido do outro. Preso a cada um, um de cada vez. Movimento cansativo. Quando para, há pouco interesse no caminho. Só se pensa no que ainda falta andar e a vontade é de, simplesmente, "passar".

Assim, nesse momento, o escrever se tornou uma tarefa de "visão de burro", que só se olha para frente. Perdi o hábito de parar e olhar em volta. Na verdade, não sei se perdi, se deixei ou guardei pelo caminho.

Sobre o ofício de escrever, confesso: quero mesmo é parar de ter que escrever e voltar a, simplesmente, poder escrever.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Para des-escrever


Deparei-me comigo:
escrevendo.

Sobre palavras:
pensadas e escritas.
Quão difíceis parecem:
gráficas ou ditas.

Parei-me comigo:
tecendo.

Às cegas,
perdi o rumo.
Com palavras,
nunca tive prumo.

Trégua.

Acordarei contido.
Esquecendo:

Do que inquietou:
Morou.
Do que aquiesceu:
Morreu.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O pão nosso de cada dia

Como já já vou entrar em um transporte coletivo. Lanço mão de uma anedota:

Estava eu na velha e boa topic 55, agora "755", no sentido Unifor-Benfica, por volta das 17h e 30m. Absurdamente lotada, quente que só a peste e o cheiramento de sovaco coletivo. Nada mais do que o "normal". Eis que no empurra-empurra necessário para que se consiga descer na parada desejada, surge uma moça, mulher, senhora, não sei ao certo - pois no amontoado ninguém consegue ter uma visibilidade de mais de 30 cm a sua frente, quando muito. Para ilustrar, caso eu tentasse procurar outro canto para pisar e mudar minha posição - com os braços levantados e pernas juntas eu era um verdadeiro "I" humano (ler-se: "i humano", por favor, nenhuma referência ao estevão empregos) - era arriscado eu perder o canto do pé e ficar que nem saci na topic. Aos que conhecem essa realidade, realmente não seria muito confortável. Principalmente, considerando a direção "defensiva, só que não" comum dos condutores de topics. Afinal, como eu sei que era uma mulher? Uma voz anunciaria sua passagem. Siga na anedota.
Então, voltando a pessoa do sexo feminino que queria passar rapidamente da catraca à porta de saída, pois a tão ansiada parada estava próxima. Tentando atravessar aquele engodado de pessoas e testando todas as leis da física de ocupação de corpos em um mesmo espaço, acabou por gerar um rebuliço nesta bendita lata, digo, topic. Uns reclamaram, outros empurraram. Até que um cearense daqueles, possivelmente advindo de Quixaramobim ou Itapipoca, talvez Mombaça, enfim, um cabra gaiato, exclama em voz alta (a dita voz anunciadora): "Negada! Deixa a muié passar, que ela vai com o pão sovado e não pode amassar."
Inevitavelmente, todas as sardinhas daquela lata riram e a mulher conseguiu deslizar ensebada com suor de todas e todos até a saída.

Só fiquei pensando: e o pão amassou?

domingo, 17 de agosto de 2014

há quem diga:
"sou duro como pedra,
sou mole como vida".

sobrevivem como rocha,
são leves como brisa.

desta vida sejam sólidos,
pois essa vida é lívida.

nesta Fortaleza das histórias
tão efêmero és tu, "vitórias".

e a cada passo da vida
não quéres tu, ferida.



em teus passos esquisitos
às fortalezas,
eu vejo bravas belezas
em meninos e meninas
esquecidXs.
infeliz certeza!

terça-feira, 5 de março de 2013


Noite parada.
Não passa.
Nem vento,
nem nada.

Até que enfim,
uma brisa.
Escorre breve.
De leve.
Serpente.

O que não passava,
Passou horas.
Alvoraçadas.

Paro agora.
Latente o tempo
No batente,
à calçada.
Esperei vento,
veio alvorada.